segunda-feira, 15 de setembro de 2008

vale a pena ler..na foto uma Educadora jequitibá


Sobre Jequitibás e Eucaliptos
Rubem Alves
=============================

"Educadores, onde estarão? Em que covas se terão escondido?
Professores, há aos milhares. Mas o professor é profissão,
não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao
contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de
um grande amor, de uma grande esperança.
Profissões e vocações são como plantas. Vicejam e florescem
em nichos ecológicos, naquele conjunto precário de situações
que as tornam possíveis e - quem sabe? - necessárias.
Destruído esse habitat, a vida vai-se encolhendo, murchando,
fica triste, mirra, entra para o fundo da terra, até sumir.
E o educador? Que terá acontecido com ele? Existirá ainda o
nicho ecológico que torna possível a sua existência? Resta-
lhe algum espaço? Será que alguém lhe concede a palavra ou
lhe dá ouvidos? Merecerá sobreviver? Tem alguma função social
ou econômica a desempenhar?
Uma vez cortada a floresta virgem, tudo muda. É bem verdade
que é possível plantar eucaliptos, essa raça sem vergonha que
cresce depressa, para substituir as velhas árvores seculares
que ninguém viu nascer nem plantou. Para certos gostos, fica
até mais bonito: todos enfileirados, em permanente posição de
sentido, preparados para o corte. E para o lucro. Acima de
tudo, vão-se os mistérios, as sombras não penetradas e
desconhecidas, os silêncios, os lugares ainda não visitados.
O espaço racionaliza- se sob a exigência da organização. Os
ventos não mais serão cavalgados por espíritos misteriosos,
porque todos eles só falarão de cifras, financiamentos e
negócios.
Que me entendam a analogia.
Pode ser que educadores sejam confundidos com professores, da
mesma forma como se pode dizer. Jequitibá e eucalipto, não é
tudo árvore, madeira? No final, não dá tudo no mesmo?
Não, não dá tudo no mesmo, porque cada árvore é a revelação
de um habitat, cada uma delas tem cidadania num mundo
específico. A primeira, no mundo do mistério, a segunda, no
mundo da organização, das instituições, das finanças. Há
árvores que têm personalidade e os antigos acreditavam mesmo
que possuíam uma alma. É aquela árvore, diferente de todas,
que sentiu coisas que ninguém mais sentiu. Há outras que são
absolutamente idênticas umas às outras, que podem se
substituídas com rapidez e sem problemas.
Eu diria que os educadores são como as velhas árvores.
Possuem uma face, um nome, uma "história" a ser contada.
Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga
aos alunos, sendo que cada aluno é uma "entidade" sui generis,
portador de um nome, também de uma "história", sofrendo
tristezas e alimentando esperanças. E a educação é algo para
acontecer nesse espaço invisível e denso, que se estabelece a
dois. Espaço artesanal.
Mas professores são habitantes de um mundo diferente, onde
o "educador" pouco importa, pois o que interessa é
um "crédito" cultural que o aluno adquire numa disciplina
identificada por uma sigla, sendo que, para fins
institucionais, nenhuma diferença faz aquele que a ministra.
Por isso professores são entidades "descartáveis", da mesma
forma como há canetas descartáveis, coadores de caf
descartáveis, copinhos de plástico para café descartáveis. De
educadores para professores realizamos o mesmo salto que de
pessoa para funções
...
7 Jun
Não sei como preparar o educador. Talvez porque isso não seja
nem necessário nem possível... É necessário acordá-lo. E aí
aprenderemos que educadores não se extinguiram como tropeiros
e caixeiros. Porque, talvez, nem tropeiros nem caixeiro
tenham desaparecido, mas permaneçam como memórias de um
passado que está mais próximo do nosso futuro que o ontem.
Basta que os chamemos do seu sono, por um acto de amor e
coragem. E talvez, acordados, repetirão o milagre da instauração de novos mundos.

ALVES, Rubem. Sobre Jequitibás e Eucaliptos. in: Conversas com Quem Gosta de Ensinar

Nenhum comentário: